Home Cultura Memória dos pioneiros preservada nos casarões em São Roque do Canaã

Descendentes de italianos se empenham para preservar construções antigas que mantêm viva a história da Região dos Imigrantes no Estado

Por Valbert Vago
Eles são presença marcante e imprimem um charme todo especial às paisagens dos municípios da região serrana do Estado. São os casarões que estão nas margens das estradas ou sobre os morros das serras capixabas.

Família Melotti na janela do casarão

Família Melotti na janela do casarão


De arquitetura singular, não se tratam apenas de prédios antigos, muitas vezes desabitados. São verdadeiras relíquias arquitetônicas, dotadas de histórias de um passado de sonhos e conquistas e memórias de gente que aprendeu a reconstruir a vida em um novo e desafiador mundo.

Não há estimativa de quantos sobrados e casebres antigos ainda resistem de pé na região. A maioria, na verdade, nem nota quando desaparecem de um dia para o outro. É certo, porém, que a maioria dentre as poucas centenas remanescentes ainda existe por causa do apego de seus proprietários para com os mesmos, considerados para estes uma espécie de relíquia familiar, testemunha da própria história.

Em São Roque do Canaã, de 2001 a 2004 a prefeitura realizou um levantamento de todas as construções com expressivo valor histórico. Foram fotografadas cerca de 130 casas, construídas entre 1880 e 1940. Também foram entrevistados descendentes dos construtores, para sensibilizar os proprietários das casas que cediam aos apelos especuladores, que compravam as construções antigas para revender a madeira ou até mesmo reconstruí-las em outros estados.
“O casario típico do imigrante, que ainda estampa e embeleza as serras e vales do interior capixaba, são verdadeiros museus, carregados de histórias que precisam ser preservadas, sob risco de se perder por completo a identidade cultural de um povo, diante dos apelos de uma modernidade desprovida de sentimentos de pertença, uma marca da geração contemporânea”, afirma o historiador Luis Fernando Achiamé, membro do Conselho Estadual de Cultura do Espírito Santo.
Não são poucos os casos de construções de alto valor histórico sendo utilizadas pelos proprietários sem a percepção do real valor.

Utilizadas como paióis, garagens, depósitos de insumos, muitas vão se deteriorando. Outras, habitadas por meeiros ou por proprietários, vão suportando a pressão das intempéries. Algumas, porém, dado o apego sentimental e o cuidado dos proprietários sobrevivem ao tempo quase que com a mesma imponência.

São verdadeiros museus, carregados de histórias que precisam ser preservadas
Luis Fernando Achiamé, historiador

 

Histórias da família escrita à mão

Alexandre, Maria de Fátima e Severino Melotti com o documento redigido pelo avô Giácomo: história construída pelas mãos

Alexandre, Maria de Fátima e Severino Melotti com o documento redigido pelo avô Giácomo: história construída pelas mãos

Perguntados sobre as histórias vividas e contadas pelos ancestrais, os Melotti se emocionam tempo todo. “A casa é um museu de histórias continuamente vivas em nossas memórias”, afirma Severino Melotti, o mais velho dos irmãos.

Alexandre, um dos irmãos, faz questão de mostrar um documento muito bem preservado, no qual o patriarca Giacommo Melotti registrava, de próprio punho, os acontecimentos marcantes na história da família, tais como datas de casamentos, nascimentos e falecimentos dos filhos. “Era um homem muito inteligente, à frente de seu tempo. Imagino que tinha alguma instrução, por que era bom comerciante e um grande líder na região”, disse Alexandre.

Herdeiros mantêm museu particular

Em São Roque do Canaã, no distrito de Santa Julia, o Sítio Felício Melotti é uma espécie de museu particular da família, descendente dos pioneiros do local.

Bem cuidado e imponente, está o casarão que abrigou a família e o comércio de secos e molhados, desde sua construção em 1909. No sobrado, além da mobília de época e fotos de todas as gerações, há um cômodo que os proprietários destinaram a guardar os instrumentos, ferramentas e utensílios usados pela família, ao longo de mais de um século.

Os Melotti no pequeno museu que homenageia os patriarcas

Os Melotti no pequeno museu que homenageia os patriarcas

Construído pelos pioneiros Giaccomo Melotti e Zelinda Guaitolini Melotti, em 1909, ainda mantém as características e elementos originais.
Mas preservar uma construção de mais de um século não é tarefa fácil. O museu particular dos Melotti só está em tão boas condições porque é mantido pelos netos herdeiros. Eles também conservam mais duas casas ainda mais antigas, sendo uma o primeiro casebre construído pelos patriarcas quando se instalaram na região, por volta de 1900.

“Quando meus avôs faleceram, as terras e o casario da sede da fazenda ficaram para meu pai. Quando este faleceu, as terras foram divididas entre os filhos. Já a sede, decidiu-se que seria uma sociedade entre todos.

Uma forma de podermos, juntos, ter condições de conservar”, justifica Maria de Fátima Melotti, sócia e responsável pela administração do sítio.

Capela conserva coreto e altar

A primeira máquina de pilar café do Estado, conta-se, operava no Sítio São Pedro. Até a capela do sítio é fruto da visão empreendedora e da riqueza do pioneiro Silvestro Fritolli. Nos anos 1930, uma enchente destruiu o cemitério dos pioneiros da comunidade.

Fritolli doou o terreno para a construção do novo cemitério, porém, não admitia que no mesmo não tivesse uma capela. Então, mandou trazer de sua antiga região de origem na Itália, uma cópia da planta da capela local, a qual reproduziu na construção local.

Segundo uma bisneta de Fritolli, a capela do sítio é a única entre as 27 da paróquia que ainda conserva o coreto no pátio, além do altar e os demais elementos da época. Alguns membros da liderança religiosa local já haviam se mobilizado para derrubar o coreto, quando foram impedidos.

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Matéria publicada na edição 13, mês junho/2015, página 8 e 9 do Jornal Santa Notícia.
Fundador e desenvolvedor do projeto Santa Notícia, empresário, designer gráfico e publicitário.

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