Home Cultura Igreja Matriz de Itarana: história de fé e grandiosidade é resgatada

Fiéis estão resgatando a história da Igreja de Nossa Senhora Auxiliadora, que completa 64 anos de
inauguração, no ano do centenário da paróquia

Igreja Itarana, 1951

Foto antiga mostra imponência da igreja,
que começou a ser construída em 1920

Quem chega a Itarana, na Região dos Imigrantes, logo vê a Igreja Matriz de Nossa Senhora Auxiliadora. Construída no alto, em um lugar que pode ser avistado praticamente de toda a cidade, a igreja está completando 64 anos de inauguração e consagração, no ano em que a paróquia também comemora seu centenário.

Com uma arquitetura que chama a atenção, a construção da igreja é cercada de histórias. Para se ter uma ideia, o prédio levou três décadas para ser erguido, desde o início da obra, em 1920, considerada um projeto ousado para a época.

“O dinheiro acabava, foram feitos leilões para angariar mais, o padre rodava as propriedades pedindo ajuda. Foi muita ousadia, fizeram uma igreja grande, toda trabalhada, e até hoje ela se destaca. Conta-se que, na época, a ideia era construir uma basílica”, contou a aposentada Maria Auxiliadora Maso Casagrande, a Dora.

A pedido do padre Neil Joaquim de Almeida e com o auxílio da sobrinha, Nilza Maria Covre Bergamaschi, Dora realizou pesquisas para resgatar a história da igreja. A ideia é transformar as informações em uma publicação. Após pesquisas em documentos antigos e ouvindo relatos de fiéis que viveram naquela época, ela reuniu várias curiosidades sobre a construção da Matriz.

A Paróquia de Nossa Senhora Auxiliadora foi instalada em 24 de julho de 1915, na então vila de Figueira de Santa Joana, que pertencia a Afonso Cláudio. Havia uma igreja, mas, em 17 de abril de 1919, iniciou-se uma sociedade para angariar fundos para a construção da nova Matriz. Cada um pagava mil réis por mês para a obra, que teve início em 17 de novembro de 1920.
No dia 1° de outubro de 1933, a obra da Igreja Matriz estava parada havia dois anos. Cerca de um ano depois, em 3 de setembro de 1934, as paredes da velha Matriz caíram. Nessa época, as missas da paróquia eram realizadas na capela de São Sebastião, devido aos problemas de estrutura da igreja.

Mas, segundo relatos, a capela era pequena e mal cabiam as crianças. Os homens e as mulheres ficavam do lado de fora, expostos ao sol e à chuva. Então, o bispo nomeou nova comissão, com supervisão do vigário Paulo de Tarso, para o término da obra.
Segundo documentos históricos levantados por Dora Maso, ele sempre dizia que seria erguido no local um templo magnífico, “sem dúvida, o maior e o mais belo de todo o Estado do Espírito Santo”.
A partir de 1939, foram feitos leilões para ajudar na obra. “Padre Henrique Zamperetti muito contribuiu para a construção dessa igreja, indo visitar as famílias a cavalo, pedindo doações, sacas de café para o término da obra”, contou Dora.

 

Projeto com luxo e  riqueza de detalhes

Com uma arquitetura no estilo eclético, a Igreja Matriz de Itarana chama a atenção pelos detalhes. O altar é feito em mármore Carrara, que veio da Itália, e tem adornos no estilo rococó, assim como as colunas, que lembram as de construções romanas.

O projetista Vitorio Stringari – que era técnico, professor de Artes e trabalhava na Escola Técnica do Espírito Santo e trabalhou também na construção da Igreja de São Sebastião, Praça Oito e Santo Antônio de Sossego – passava as férias, entre dezembro e fevereiro, na região, e ajudou na obra. Foi ele quem moldou em gesso as peças estilo rococó que adornam o templo.
As formas que ele preparou para moldar as peças ficaram por anos guardadas sob a escada da casa canônica. Elas foram encontradas somente em 2009.

Os anjos que seguram o candelabro de Nossa Senhora Auxiliadora foram feitos pelo professor Américo, da então Escola Técnica Federal do Espírito Santo. Ele os moldou tendo Olivia Cei de Araújo como modelo.

O quadro para colocar a planta da matriz foi feito por Pedro Sepulcri e a planta foi trazida pelo padre Frederico. A construção da arte dos arcos, colunas e outras partes da construção foram feitas por Quintino dos Santos, que fazia as peças nos moldes e depois adornava os arcos e colunas dentro e fora da igreja, no altar.

O piso da Igreja Matriz é conhecido como ladrilho hidráulico e é um tipo de revestimento artesanal feito à base de cimento, usado em pisos e paredes, que teve seu apogeu entre o fim do século XIX e meados do século XX.

Primeira a ser consagrada no Estado

A inauguração da Igreja Matriz Nossa Senhora Auxiliadora, em 15 de julho de 1951, em Itarana, foi um grande evento. O templo foi o primeiro a ser consagrado no Estado antes mesmo do Convento da Penha.

A sagração foi feita pelo bispo dom Luiz Scortegagna. Na época, o padre Henrique Zamperetti, que chegou em outubro de 1946, não mediu esforços com objetivo de angariar fundos para a conclusão da obra. A celebração foi acompanhada por pessoas de outros municípios, incluindo autoridades. A notícia sobre a festa foi publicada em jornais do Estado, como A Tribuna, e até da Itália, e chegou a ser filmada.

As ruas ficaram lotadas, pois na consagração os fiéis ficaram do lado de fora, enquanto os padres e bispos faziam a consagração e as autoridades acompanhavam. Segundo relatos, a solenidade durou cerca de seis horas.
Quem estava lá era a aposentada Alba Venturini, 89 anos. Ela era corista e cantou durante a celebração. Ela lembra que o grupo era formado por cerca de 15 pessoas, que acompanharam o evento. Em casa, guarda com carinho e cuidado recortes de jornal que relatam a consagração.

Em A Tribuna de 19 de julho de 1951, Osvaldo Zanello descreveu: “Oficiadas por Dom Luiz Scortegagna, com acompanhamento de cerca de dez sacerdotes, entre os quais se encontrava o ilustre diretor do Colégio Sacramentino Pio XI de Manhumirim, as solenidades duraram cerca de seis horas”.

A publicação descrevia a igreja: “Rendas e filigranas imortalizam um artista, cuja sintonia de cores reflete o bom gosto e o conhecimento do belo, cujo altar-mor, talhado de mármore Carrara, nos trouxe a contribuição dos artistas da lendária e amiga Itália, procuramos conhecer um pouco da história daquele templo que se consagrava com tanto esplendor e suntuosidade à Virgem Auxiliadora dos Aflitos”.

De acordo com o jornal, com divergências entre os políticos sobre emancipação, entraram num acordo em que Itaguaçu ficaria com a sede do município e Itarana com a sede da Paróquia.

Memórias bem guardadas

Aos 89 anos, Alba Venturini lembra bem da conquista que foi para Itarana a conclusão da obra da Igreja Matriz de Nossa Senhora Auxiliadora. Ela era integrante do grupo de coristas e participou ativamente do evento de inauguração e consagração da igreja, em 1951.
“A construção da paróquia foi sempre muito difícil, tudo feito pela comunidade mesmo. Tinha muita festa para arrecadar dinheiro. O dia da consagração foi muito especial”, contou ela, que lembra o nome de cada um dos colegas de coro que participaram da missa.
Dona Alba guarda recortes antigos de jornal e um deles, de 1965, ressalta a comemoração dos 50 anos da paróquia. “Achei o jornal no lixo e guardei”, contou ela.

Em 1951, evento registrado em filme

A importância da construção da Igreja Matriz para Itarana foi tanta que a celebração para inauguração e consagração do templo foi registrada em filme, quando filmar um evento ainda era algo pouco comum e guardado apenas para ocasiões muito especiais.

Quem contratou a filmagem, em preto e branco e sem áudio, foi Elias Estevão Colnago. Um cinegrafista contratado foi de Vitória a Itarana para fazer o trabalho. Posteriormente, o filme foi dado a Florisval Vieira Malta, marido de Alba Venturini. Ela contou que ele tinha na época um cinema itinerante e recebeu as imagens em 16 milímetros.
As imagens, resgatadas recentemente e transformadas em DVD, mostram as ruas em torno da Matriz lotadas de fiéis e o bispo dom Luiz Scortegagna fazendo os ritos da consagração, com água benta.

Dona Alba Venturini, que era corista da igreja e cantou durante a celebração, lembra que a igreja estava vazia, sem os bancos. “Dentro dela estavam somente os padres, o bispo e as cantoras do coro, que eu fazia parte. O bispo ungiu as cruzes da parede, tudo foi ungido”, lembrou.

Confira o vídeo:

Curiosidades

O símbolo

Na fachada da Igreja Matriz de Nossa Senhora Auxiliadora tem um pelicano. Na Europa medieval, considerava-se a ave um animal especialmente zeloso com seu filhote, ao ponto de, não havendo com que o alimentar, dar-lhe de seu próprio sangue. O pelicano tornou-se, então, um símbolo da Paixão de Cristo e da Eucaristia.

A imagem

A imagem de Nossa Senhora Auxiliadora é de madeira e foi esculpida na Escola Pavoniana de Escultura em Santo Antônio, em Vitória, a pedido do padre Henrique Zamperetti.
O escultor foi Tomaselli e o doador foi Salvador Fardin. A imagem mede 1,70m e tem o cetro solto com coroas fixas. Foi levada em procissão desde a Canônica até a Matriz.

O cruzeiro

O cruzeiro atrás da Igreja Matriz substituiu um mais antigo que ficava próximo à antiga igreja por estar corroído pelo tempo. Com mais de 50 anos, foi lavrado por João Alves e os detalhes foram feitos por Andréa Cei.
Luiz Galvagne, Wandir Follador e Herlio Sepulcri ajudaram a construí-lo.

Reforma em 1961

A primeira remodelação da Igreja Matriz começou em 14 de agosto de 1961. A torre estava cheia de cupim e o telhado dos vãos laterais precisava de conserto. Foi trocada a madeira da torre, que ganhou cimento e foi aumentada em 3 metros. O término das obras da Matriz aconteceu em 18 de agosto de 1962. Além de modificarem a torre, construíram um cômodo atrás da igreja para guardar madeira.

Matéria publicada na edição 14, mês agosto/2015, página 8 e 9 do Jornal Santa Notícia.
Fundador e desenvolvedor do projeto Santa Notícia, empresário, designer gráfico e publicitário.

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