Home Colunas Coluna #História: O casarão, a costureira e o vendedor de leite

Por Chico Zanoni, é professor
Já passava das 17 horas. Dona Alice dizia: Cisquinho (apelido de mãe, não me envergonhava por isso, não era superlativo ou apenas diminutivo. Era só a forma carinhosa de chamar o caçula), vá no seu Virgílio pegar o leite!
Lá ia eu. Leiteira na mão. Era pertinho. Às vezes, o líquido branco chegava pela manhã. Lá ia eu. Só eu. Não era castigo, era a minha obrigação do dia.

Seu Virgílio era um senhor agradável, um pouco sovina, só um pouquinho, mas era. Nessas horas já existia uma pequena fila. Aguardava um pouco. Éramos só jovens, amigos de escola ou da rua. Obrigação dos temporãos.
Ele entregava leite na porta da frente, próximo à escada que dava acesso ao segundo andar, onde ele morava.
A medida dele era confiável, o leite também. Ao fervê-lo, a nata espessa se formava. Nata que Dona Alice recolhia para fazer biscoitos ou pasteizinhos recheados com goiabada.
Seu Orlando Zotelle também morou aí.

Podem querer ter amenizado as rugas e as linhas de expressão do velho casarão, mas, juro, gostava dele daquela forma: sóbrio, romântico e fornecedor de leite e de cimento.

Seu Orly Bassetti comandava, com punhos de ferro, a única casa de material de construção que por aqui existia. Vendia, desde tintas, até o menor parafuso. Era uma casa com escada íngreme, com varandinhas na frente. Bege ou marrom, não lembro direito. Tempos remotos? Nem tanto.
Refiro-me ao sobrado que tem criado polêmica aqui na Terrinha. Sei que está descaracterizado. A aparência não é mais a mesma. Talvez tenha passado por aplicações da tal toxina botulínica, mas a essência continua a mesma.
Podem querer ter amenizado as rugas e as linhas de expressão do velho casarão, mas, juro, gostava dele daquela forma: sóbrio, romântico e fornecedor de leite e de cimento.

Continuo gostando. É a minha história, é a história da Terrinha. Famílias amigas moraram ali. Há uma história ali. Vidas, amigos, saudades, infância. Seu Chico Miguel, Dona Alice, Donas Pinas (a Pretti e a Dalcolmo), Dona Cristina (mãe da Lucinete, da Popa, da Rita, da Cristina e de mais meia dúzia), Frei Angélico e o Estevão. Os Gasparini, os Biasutti, os Croce. Tantos outros. Éramos famílias unidas ao redor do casarão. O casarão do seu Virgílio Bassetti, o vendedor de leite.

Bom dia, Terrinha!
Bom dia, amigos!

Matéria publicada na edição 13, mês junho/2015, página 14 do Jornal Santa Notícia.

 

Fundador e desenvolvedor do projeto Santa Notícia, empresário, designer gráfico e publicitário.

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